O Realismo Metafísico Formal

O realismo metafísico do objeto das ciências formais (ou seja, da lógica, da matemática e da geometria enquanto entidades presentes no mundo, embora presentes de maneira intrínsica)


Um diálogo entre Vinícius Scarpin e André Caregnato


V. -"Então o que é existir para você? Por definição etimológica, "existir" é o "estar fora", podendo significar até o "estar à frente" (que nesse caso coincide com "presença")."

A. - Uma coisa existe ao meu ver quando ela faz parte do conjunto de coisas reais, e para mim a matemática, e a lógica por exemplo são coisas que fazem parte do conjunto de coisas reais (não são ficção, as razões e proporções de que tratam existem mesmo no mundo e podem ser comprovadas por medidas e cálculos, além de por sua linearidade ou não-contradição [que só quando não conhecemos bem algo nos parece haver contradições na realidade, e contradições estas que são de nossas explicações sobre a realidade e não da realidade em si mesma - é importante não confundir essas duas coisas]). Toda tese que possa ser demonstrada racionalmente como verdadeira passa a fazer parte do conjunto de coisas reais (pois são apenas a expressão verbal de uma realidade que faz parte do mundo de forma intrínseca [esse fazer parte do mundo de forma intrínseca é como ao se encostarem duas cores claramente distintas forma-se como se fosse uma linha divisora entre elas embora essa linha não tenha cor nenhuma nem exista, nossa mente forma ela pois sabemos que a divisão existe]). Em outras palavras, pra mim, o real é racional e o racional é real.

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V. -"Por que o número um («1») existe, o círculo existe, mas a mula sem cabeça ou um gnomo não existe (embora todos «sejam»)?"

A. - Tanto o número quanto a mula sem cabeça ou o gnomo são entes de razão, a diferença é que os dois últimos são falsos (não tem correspondência real no mundo enquanto tais como descritos nos contos sobre gnomos e mula sem cabeça), já o primeiro tem correpondente no mundo real (visto que trata apenas de quantidade e no mundo a inúmeras coisas com quantidade). O que não é apenas um ente de razão é a matemática subjacente nas coisas do mundo... que se não existisse nós não seríamos capazes de fazer qualquer cálculo matemático usando ela. Quando uma realidade dessas (como as razões da matemática ou da lógica) é descoberta ela passa a fazer parte de uma teoria verdadeira enquanto pertencente ao conjunto da "verdade", mas o que a torna existente não é esse fator e sim o fato dela existir no mundo possibilitando assim que pudéssemos encontrar elas no mundo real e explicitá-las apenas por meio das explicações teóricas (teorias matemáticas e lógicas - mas o que existe de fato são elas e não suas explicações/teorias [embora essas também existam mas não no sentido literal de "estar fora" - ou seja, de serem algo que não apenas pareça real dentro de nossas cabeças por razões que satisfaçam nossos critérios mas que tenha realmente presença no mundo independentemtne de nossas mentes concebê-las como algo real ou não]). A entidade matemática bem como a lógica são coisas que pela inteligibilidade captamos da estrutura da realidade e podemos comprovar ela como existente. E não é que ela não existisse por si mesma, mas apenas por nossa capacidade de inteligir, como se fosse algo que nossa mente imprime nas coisas para facilitar sua compreensão, pelo contrário, é por ela existir por si mesma na realidade é que nós conseguimos inteligí-la. Pra negar a realidade ou existência da matemática e da lógica seria necessário negar a realidade que é passível de ser expressa pelos universais, pois assim (negando a realidade que é passível de ser expressa pelos universais) seria impossível ter duas pedras, ou duas moedas ou duas ou mais coisas quaisquer sejam elas quais forem. Pois cada ente que agora chamamos de pedra, moeda ou qualquer outra coisa que seja seriam considerados entes absolutamente únicos e, que portanto, não poderiam ter um mesmo nome que um outro ente/ser existente e singularmente considerado. E se não poderiam ter um mesmo nome, (ou seja, cada ente singularmente considerado teria, então, que ser nomeado univocamente) tudo seria unívoco e portando seria impossível ter dois ou três objetos designados pelo mesmo termo, aliás, até a própria noção de "objeto" seria unívoca, sendo aplicável então a um único ente singularmente considerado, impossíbilitando assim qualquer quantidade de qualquer coisa que fosse diferente de um único exemplar - ou seja, até a palavra "objeto" usada aqui para explicar, não poderia se referir a mais de um ente/ser singular no mundo.

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V. -"O que a maçã à minha frente tem em comum com o número 1 para que eu possa dizer que ambos existem (colocá-los na classe dos existentes)?"

A. - Se você se refere a ela no singular é porque já estás fazendo uso da realidade quantitativa unitária para descrever a realidade que percebestes. E portanto já descreves uma realidade a respeito dela. Negar que ela seja "uma" maçã seria não saber ou não poder delimintar quantitativamente o quanto de maçã se estaria observando, mas você sabe que é uma... portanto esse "saber" dessa "quantatividade" é uma prova inconteste de que o número que representa essa quantidade de maçã não é apenas um signo com sentido, mas também uma realidade codificada no signo (palavra) e expressa por meio dele(a).

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V. -Eu, na verdade, "não creio" na Epistemologia.

A. - Mas ela não é artigo de fé (dogma) para ser crito, é justamente a crítica do conhecimento.

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V. -"A verdade é verdade do que é, não do que não é. Portanto, a verdade é verdade do Ser."

A. - O que a frase a acima significa pra mim: A verdade é a verdade sobre a essência das coisas, não do que não é a essência das coisas. Portanto a veradade é a verdade sobre a essência das coisas.

A. Eu diria, a verdade é a verdade do que é (essência), e da forma que é (se ente de razão falso, se ente de razão real ou se ente existente).

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V. -"Aqui, estamos tratando de graus de ser, onde estamos falando que um deles chama-se existir, que difere dos demais, mas não entendi ao certo porquê."

A. - Creio que esse ponto já tenha ficado esclarecido isso nos pontos que respondi acima. Por exemplo, as geometrias que se pode ver nos veios nas folhas das árvores mostram sempre padrões matemático-geométricos muito precisos (bem como a natureza nunca viola a lógica, e quando parece violar, é nossa compreensão que falha em compreender seu mecanismo de funcionamento real que mais a frente vemos estar de acordo com elas) demonstrando que tais coisas como a matemática, lógica etc não são invenções nossas, já se encontravam embuídas no mundo, embora nós possamos tê-las explicitado. Veja como exemplo este vídeo que mostra o padrão da sequência Fibonacci na natureza:




Alguns considerações minhas retiradas de um debate sobre o assunto:

O que importa aqui sobre esse assunto, ao meu ver, é se ele:
1) é apenas um ente de razão (e o mundo não se rege por ele sendo apenas um construto mental que lançamos sobre a realidade, sendo como uma ilusao de nossa pecepção/intelecto); ou
2) se ele existe de fato no mundo (ou seja, o mundo se rege por tal - e por isso nossa estrutura intelectiva o capta/percebe).

Por exemplo, ao observarmos as ligações químicas vemos que há bastante matemática envolvida, e até no formato geométrico das moléculas etc... nossa mente que projeta padrões no mundo onde eles não existem? Ou eles existem de fato no mundo e por isso nossa mente os capta?

Se é um conhecimento a priori, então é um "conhecimento" e todo conhecimento é composto de "realidade" (o que as coisas são) e "existencialidade" (quais delas existem e quais não existem). Logo, ao meu ver, conhecimento a priori não seria algo que diz respeito tudo que extrapola a nossa mente... ou em outras palavras, se o objeto do conhecimento não existir de fato (não havendo uma referência real entre o pensado e o externo), então aquilo não é conhecimento e sim uma ilusão/imaginação/cogitação/ente-de-razão.

Penso que não existe nada puramente sintético ou analítico, esses são esquemas mentais metodológicos para tentar fazer calssificação do conhecimento com base em sua origem. Oconhecimento é quase sempre uma síntese de reflexão e experiênciação (no início mais experienciação, claro). Então a matemática é sintética e analítica (como tudo o mais, até a metafísica etc). Há que se diferenciar o método de operação de uma dada área do conhecimento, com o como adquirimos o conhecimento que tornou tal área do saber possível.

Sintético a priori só se refere a proposições. A multiplicidade de unidades foi percebida fenomenologicamente o que possibilitou reflexão transcendental (e não indução) para que se pudesse encontrar o gênero mais próximo e a diferença específica para que então se pudesse criar o termo "multiplicidade", "unidades" (e termos correlatos) e só então, depois da existência desses termos é que se pode criar proposições sintéticas a priori baseadas nestes termos, que por sua vez são construtos baseados numa experiência prévia. Caso contrário tais termos teriam que ter sido inventados baseados no nada e com referência a nada do que conhecemos seja no mundo inteligível seja no mundo real - ai sim eles não teriam nenhum tipo de derivação da experiência sensível. Mas é o contrário, eles existem e fazem sentido justamente por derivarem dela.

Mesmo a definição de círculo ou triângulo (que dizem ser auto-intuitiva - e são, para quem já tem experiência com elas - do contrário "triângulo" diz apenas "três ângulos" mas não diz que as retas de cada ângulo tem que estar alinhadas com as dos outros, de forma que poderia ser três ângulos soltos e desconectados como se cada ponta do triângulo tivesse sido serrada)... fale círculo a um bebê que acabou de nascer ele não terá a menor noção do que aquilo seja. Ele terá que ter experiências com círculos para poder formar seu conceito de círculo para só depois então poder compreender quando ouve a tal palavra ou poder expressar a ideia de círculo quando ele quiser tentar falá-la. Veja:




Eu sei que o conhecimento a priori se baseia em conceitos (exemplo "o todo é maior que a parte", ou "todo solteiro é um não casado") mas se o cara nao conehcer esses conceitos previamente (e isso se faz conceitualmente mas com a participação da experiência conjuntamente, logo não há conhecimento a priori e sim apenas proposições a priori). A proposição a priori é algo possível pois já foi obtido conhecimento pela experiência previamente, conhecimento esse que nos torna cientes do que representam aqueles conceitos usados.

O problema surgiu quando eu atualizei minha noção de "ser" que significa então para mim agora apenas a definição ou essência de algo ou uma classe de coisas e não mais "existir". Se lhe pareceu meio embaralhado você poderá entender melhor isso neste meu artigo dedicado ao assunto aqui: Ontologia.

Agora me confronto então com a necessidade da atualização do conceito de "realidade" (se ela se aplica de forma propriamente dita à natureza dos seres [essência] ou à existência das coisas e as relações entre as coisas existentes, ou seja, em termos mais curtos ainda, se ela se aplica ao ser ou à existência).

Me parece claro que o caminho mais correto seria o de considerar a realidade como se referindo às coisas existentes e as relações que elas mentém entre si - o que coloca a realidade dentro do âmbito da fenomenologia.

O plano do real é o da existência, logo, temos que considerar reias todos os seres que existem e somente eles.





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