ONTOHERMENEUTOLOGIA SEMIOLÓGICA


Ou
A Nova Ontologia de Participação de Classes, de Conteúdo Existencial Contextualista, E Revisionista da Linguagem

Uma tese ontológica simples mas de implicações profundas, ancorada nas seguintes grandes áreas: Ontologia, Hermenêutica, Semiótica e Lógica

André Careganto


O ser e o ente

Um ente é qualquer exemplar de uma classe específica de seres, ou qualquer membro de qualquer tipo de classe de coisas - tal como "uma caneta" que faz parte do conjunto de canetas, "um sapo" que faz parte do conjunto dos sapos e assim por diante.

O ser é justamente aquilo que diferencia cada ente em relação a todos dos demais tipos ou classes de entes. É a aquilo que dá a cada classe de seres o seu diferencial que é também a sua razão de existir enquanto classe (pois se os entes de uma classe fossem exatamente iguais aos de outra em todos os aspectos, uma delas deveria deixar de existir e seus membros passariam para a outra classe, pois deve haver apenas uma classe para cada tipo de ser). O ser é a própria essência, natureza ou substância do ente, e cada classe representa um tipo de ser. Isto é, cada classe representa aquilo que é expresso pela definição de cada ser (ou classe, visto que os entes levam os mesmos nomes que os de suas classes - o ente cachorro, da classe dos cachorros, e assim por diante). O ente é sempre um membro, um exemplar individual da classe a que pertence, enquanto o ser é genérico e abrange a todos os entes que tem atribudos compatíveis com os seus - mas não se confunde com a classe, esta é, para simplificar, apenas um rótulo. Em outras palavras, um ser é sempre um exemplar (genérico) de uma determinada classe de entes (ele não pode ser específico pois ele tem por função ser genérico), já um ente é sempre um exemplar específico de um determinado tipo de ser.

Nem todo predicado é essencial (ou seja, nem toda afirmação diz respeito ao núcleo do ser), a maiora das afirmações são sobre os acidentes do ser, ou seja são predicados acidentais e não essenciais (essencial aqui tem o mesmo sentido de relativo à natureza específica de um tipo de ser, ou sua substância). A ontologia trata do "ser" de cada ente (ou na linguagem popular, de cada "coisa", já os acidentes sempre estão de acordo com natureza/essência/susbstância do ente/coisa mas podem ou não estar presentes - mas nunca estão todos ausentes ou presentes em cada ente individual, variando sempre a cada instante - ou na linguagem técnia "se atualizadno a cada instante"). Eu posso dizer que o unicórnio é um lindo animal. Mas disso não se deduz que ele tenha o predicado da existência necessariamente... pois aquilo pode ser verdade dentro do contexto adequado que no caso seria o de estar contando uma estorinha infantil e dentro da estorinha infantil o unicórnio é um animal bonito - isso não é prova de que ele exista (o problema dos religiosos é misturar o âmbito das coisas e depois tirar conclusões erradas com base nisso como alguém que dissesse que o unicórnio existe pois a estorinha fala dele).

A cópula ou inclusão lógica de classes não diz respeito necessariamente "o ser", ela é apenas a expressão de um "juízo" (ou seja, uma "proposição") e não o ser do ente, exceto unica e exclusivamente quando essa proposição se refere ao ser do ente.

Uma gravidade e uma inércia ontológica

Ela funciona da seguinte maneira, o gênero mais próximo de um ente (vem a ser conhecido após analisar-se os atributos do ente frente aos gêneros/classes de coisas já conhecidas) somado à diferença específica do ente que está sendo analisado em relação aos demais entes do mesmo gênero/classe define o ser dele, ou seja, a que classe de seres a que ele pertence, não nos referimos agora à classe geral (o gênero mais próximo) mas sim a uma outra classe dentro desta que passa a ser a de todos aqueles seres que fazem parte desta mas tem uma diferença específica de natureza [aquilo que o difere dos demais entes da classe geral ou do gênero mais próximo]). Exemplo, o homem é, no seu gênero mais próximo, um animal. Mas a sua diferença específica para com todos os outros animais é que ele possui a racionalidade. Logo a natureza do homem é a expressa pela seu gênero mais próximo (animal) mais sua diferença específica (racional) tendo portanto sua essência expressa pela seguinte definição: "o homem é um animal racional". Todo ente ao iniciar a atualização de uma potência sua sofre uma resistência maior do que quando ela já está em andamento/movimento ou em ato. Isso é o que podemos chamar de "inércia ontológica".

Entes existentes X Entes inexistentes

Quando digo "Lula é um ex-presidente do Brasil" o que indica ele como um ente existente na frase não é o verbo, mas sim o predicado e o contexto maior do predicado (se ficcional, irônico, sarcástico ou realístico etc). A lógica auxiliada pela hermenêutica é quem indica a concordância tanto interna quanto externa do discurso e faz o contexto maior no qual se insere o predicado do sujeito na afirmação. E por outro lado ao dizer "a fada é loira" isso também não implicaria em dizer que a fada existe, mas sim apenas que ela é loira, embora isso nada tem a ver com dizer que ela existe realmente (ou que ela exista na vida real). O mesmo se daria com a frase "Deus é amor".

A existência é uma propriedade extrínseca e contingente. Extrínseca à essência do ser. Por exemplo: O homem é um animal racional. Essa é a essência do homem. Ele existir ou não não é um atributo essencial mas sim um acidental que não está na sua definição (ou na sua essência) mas fora dela. Mas o que é o ser do homem - isto é, sua essência - (a saber, ser animal racional) não depende dele existir. Pois ser é apenas ter uma essência. Existir é essa essência ter presença concreta no mundo real. Caso contrário a essência do homem teria que ser: Animal racional existente. Mas isso implicaria em dizer que seres extintos não seriam mais o que eram quando existiam, quando na verdade eles não deixaram de ser o que eram, apenas deixaram de existir como existiam (em vida). Os entes até podem se transformar em outra coisa, petróleo, matéria prima pra fazer fogo ou o que for, mas o ser (que é a classe de entes dada pela definição - à qual eles faziam parte) é imutável. E a existência é contingente pois ela pode ou não estar presente num determinado tipo de ser e isso não está dado de princípio pela sua definição - nos que existem, ela está presente e nos que não existem ela não está presente, mas isso é algo que não é estático e sim móvel, seres que existem deixam de existir (extinção), e seres que não existem passam a existir (novas espécies, invenções etc).

Ou seja, é perfeitamente possível ser (algo) sem existir (exemplo: sereias, gnomos SÃO entes de imaginação, personagens de histórias infantis, embora não existam), porém o contrário é impossível, existir sem ser (algo).


"Ser" não é "existir enquanto X", ser é simplesmente "ter a essência X", mesmo não existindo. O que diz se a coisa existe ou não, não é o "ser" ou o "é", e sim, o que se pode afimar, com razão, do que vem antes ou depois disso na frase (ou seja, o que se pode afirmar sobre).

O que propomos é o esviamento da existência do ser.


Quando digo "é necessário beber água" eu não estou com isso dizendo que água existe de modo direto, estou fazendo uma afirmativa dentro de uma perspectiva que já tem como garantido o fato de a água existir e o que afirma a existência da água nessa frase não é o "é", o "é" nesse caso só incluiu o "beber água" dentro da classe de "coisas necessárias para manter a saúde".


Tirem do "é" e do "ser" o peso de "existência", não é ele que dá isso, ele é apenas a ponte que liga o sujeito e o predicado, mas é o predicado, somado ao contexto e ao contexto maior que dão ou não peso da existência, e não a conjunção (verbal).

A conjunção não verbal é denotada explicitamente pelo termo "e", sem acento, (e de forma implícita pelos termos "com" - exemplo "tomei café e leite", "tomei café com leite"), já a conjunção verbal é denotada explicitamente pelo termo "é" (indicativo do tempo presente - bem como suas flexões temporais - obviamente) que tem a função de dizer ou pertencimento a classes (exemplo: "José é pescador") mas também o tempo de perspectiva da assunção em questão através das respectivas variações temporais e flexões verbais como "foi, fosse, será, seria". Isso muda tanto a metafísica, quando a gramática. Por exemplo: Minha amiga é dona de casa e professora. Poderia ser escrito assim também: Minha amiga é dona de casa e é professora. Ou minha amiga é dona de casa e também professora. Ou: Minha amiga é dona de casa, professora. Ou minha amiga e dona de casa e professora.


O uso do "é", nada mais faz que incluir entes em classes (ou atribuir predicados em sujeitos), que é também conhecido como "cópula" ou "juízo", adicionando a isto um tempo verbal (tem outros usos como mostraremos um pouco abaixo também), mas o uso do "é" ou do termo "ser" jamais implica automaticamente na afirmação da existência dos entes pelo simples fato de ter sido utilizado (exceto quando explicitamente usamos o "é" no seu sentido confirmativo [tipo quando te perguntam: é verdade que pessoas de duas cabeças existem? ai você responde "É."] ou no sentido afirmativo explícito "é verdade que pessoas com duas cabeças existem" para incluir algum ser na classe de seres existentes). Mas excetuando-se esses casos explícitos o termo "é" e o termo "ser" jamais implicam em afirmação automática de existência de qualquer coisa. Afirmar o contrário disso seria cair na falácia de ‘non sequitur’, exceto no caso de uma frase do tipo "flor é um ente existente" (pois ali obviamente se incluiu o ente 'flor' na classe dos entes 'existentes' explicitamente). Porém nos demais casos onde a inclusão dos entes na classe dos entes existentes acontecem de modo implícito - sua existência ou inexistência é compreendida, concomitantemente, com base em seu predicado, e com base ao contexto interno do texto, e em seu contexto externo ao texto (contextos estes que inclusive determinam o gênero do texto), além de, por sua essência e acidentes, visto que, ambos tornam os entes participadores de classes (que é o que eu uso como sinônimo de "ser", o ser de alguma coisa é a essência daquela coisa bem como seus acidentes que são uma expansão de seu ser, ou seja, o "ato de ser" para mim, ao contrário do que é para Tomás de Aquino, não é o ato de existir, mas sim, pura e simplesmente, o ato de ter uma determinada essência, ou de participar qualquer tipo de "classe de coisas", sejam elas existentes no mundo real, ou meros entes de razão. Ou seja, é um ato de participação categorial e não um ato de participação existencial - pois para mim, o ato de participação existencial seria o ato de existir, e não o ato de ser X coisa (pois 'ser' sem mais, não significa nada). Por exemplo: um cavalo alado é ¹ alguma coisa (pois se não fosse nada quando eu dissesse "cavalo alado" esse termo não evocaria nada em você e portanto você não faria a menor ideia do que se trataria tal coisa), coisa esta, porém, que não existe. Note então que o fato de um cavalo alado 'ser' alguma coisa não torna esse 'ser' em um algo 'existente'. Fica portanto mais do que evidente que ser e existir não são e nem poderiam ser a mesma coisa - como pretendem os tomistas.


SOBRE O SUPOSTO "ATO DE SER"

Não existe "ato de ser" pois ser algo não é um "agir", todo agir implica em escolha e não dá pra escolher "não ser" o que se é. E mesmo o conceito metafísico de "atualizar" um ser é atualizar a forma desse ser (pois o ser mesmo é a forma) apenas e isso nada tem a ver de forma direta com a existência desse ser no mundo real. Por em ato um novo ser como dar nome a uma fada loira cheia de sardas etc acabei de por em ato um ser, porém um ser que como sabemos não existe, mas nem por isso deixa de ser um ente de razão/mental.

Então, da próxima vez que um tomista vier lhe dizer que deus existe porque segundo o tomismo ele é o "ser" lembre-se...


"Ser" não é "existir". "Ser" é "participar de classes", seja por essência (exemplo: humano), ou pelos acidentes (exemplo: "homem", ao invés de mulher), por suas qualidades (exemplo: inteligente), ou pela circunstâncias (exemplo: faminto, fazendeiro etc).


Dizer que algo "é" não implica necessariamente em dizer que ele existe.


Portanto a afirmação como "O Ser é" se constitui em uma mera tautologia, assim como a assunção "o não-Ser não é". E em momento algum significa que esse Ser exista (independentemente do significado a ele atribuído). O 'ser' então, (note que isso é uma explicação funcional e não uma definição nominal) com apenas essas atribuições, a saber, a de fazer inclusão de classes na lógica, e dar predicados a sujeitos na linguagem - exemplo: "Pedrinho é um bom menino"), a de atribuir o verbo "estar sendo" em sua forma atemporal ("ser"), com indicação de tempo de ação do verbo (note o 'é' que indica que 'Pedrinho é um bom menino [e por isso está incluído na classe lógica dos bons meninos] no tempo presente') passa a ter o mesmo sentido de (ou ser sinônimo de) "estar" (estar estando).
Exemplo: Adriano é o melhor motorista da empresa--> Adriano está sendo o melhor motorista da empresa.


é = atribuição de ser (feita a algo)

onde "ser" tem todas as seguintes funções ou sentidos (embora não devesse, para evitar equívocos) -->
= inclusão de classes [no plano da lógica de classes]
= predicação de um (ou mais) sujeito(s) [no plano da linguagem]
= afirmação da ação de ser ( = afirmação do sujeito estar sendo predicado ou do objeto estar incluso em uma ou mais classes)
= atribuição de temporalidade ou atemporalidade (exemplo: "deixa de 'ser' trouxa" significa que a pessoa "está sendo" temporalmente trouxa no presente (e não que ela seja, de uma vez por todas e atemporalmente trouxa; assim como também quando se diz que alguém "é gordo" se está querendo dizer que ele na verdade 'está gordo', pois ser gordo é um acidente e não a essência daquele ser humano, cuja a essência é, obviamente, a humana; porém quando dizemos que os líquidos são molhados não pretendemos dizer que eles "estão" molhados, mas sim que sempre estarão [atemporalmente] molhados - talvez poderíamos dizer então que "os líquidos sempre 'estarão' molhados" e isso solucionaria o problema). Dessa forma vemos que "ser" pode, com um pouco de esforço mental, ser convertido com sucesso para "estar" e que "estar" pode, com um pouco de esforço mental, ser convertido com sucesso para "ser" - o que nos leva a crer que ambas as formulações são apenas duas formas de expressão da mesma entidade primordial avindas de origens diferentes.
= indicação de tempo de ação do verbo.
= indicação de correspondência entre o pensamento e a realidade (no plano epistêmico/epistemologia, mais especificamente no campo da Teoria da Verdade).

Desafio a algum tomista de plantão por aqui sobre o "Ato Puro": Prove que é possível existir atualização de algo sem potência e terá provado que possa existir ato puro... antes disso não.

Em resumo, voltando aos termos iniciais Ontohermeneutologia Semiológica = ((Ontologia+Hermenêutica)+(Semiótica+Lógica)). A Nova Ontologia de Participação de Classes (quer dizer que o ser é a essência), de Conteúdo Existencial Contextualista (que depende do contexto existencial, textual [hermenêutica] e do contexto lógico [lógica] , E Revisionista da Linguagem ( causando uma reinterpretação da linguagem no que se refere a, primeiramente, termos como "ser" e "estar" e depois possivelmente outras palavras desde que alinhado com a perspectiva geral [semiótica]). Sobre o argumento de que deus seria o "ser necessário" em oposição a tudo o mais que seriam sua criação e seriam "seres contingentes", nesse caso acaba-se mencionando uma classe de seres (necessários, incausados, imóveis) da qual até o momento não há provas da existência de nenhum deles, o único ser a preencher essas classes, seria o mesmo Deus que supostamente visa ser demonstrado por meio da evocação desses atributos, que, portanto gerariam classes de seres correspondentes a tais atributos (todo atributo diferenciado gera uma nova classe de seresm com aqueles atributos ainda que seja uma classe vazia).

Porém justamente por se estar tentando demonstrar a existência de Deus com esses argumentos que possuem esses termos "necessário", "incausado", "imóvel" é que Deus não serve como prova da existência de tais atributos em algum ente real, e nem eles servem como prova da existência de Deus, uma vez que até o momento são classes vazias.

E, também não faz sentido usar termos e outros igualmente de classes vazias (ou que teriam sua prova justamente junto com a conclusão), uma vez que fica muito fácil chegar à conclusão de um ser desses existir depois de tê-los assumido na premissa (mas ai não vale, é "petitio principi"). Ou seja, é como eu usar o Espaguete Voador pra provar que a Mula Sem Cabeça existe. Se não tenho prova de que nenhum nem outro existe, não posso usar um como prova da existência do outro e nem muito menos usar ambos como prova de ambos (como se um provasse a existência do outro mutuamente - sendo que na verdade não se tem prova da existência de nenhum dos dois).

Sem essa demonstração essa tática de isentar a conclusão (Criador) da causalidade exigido de todo o resto - com nenhuma evidência de que qualquer ser "sem causa" ou entes "não contingentes" especiais realmente existam - faz com que o Criador (a suposta coisa incausada) se torne uma parte da definição da premissa, o que faz com que o raciocínio seja circular.

Porque demos uma certa ênfase na refutação do "deus não existe mas é"? Porque é um engano superficial que tem atrapalhado o estudo da ontologia, metafísica e tem atrapalhado a compreensão das pessoas sobre a realidade.

Pelo exposto acima, verifica-se que derrubamos dois axiomas escolásticos: 1) Todo ser é bom (Omne Ens Est Bonum). 2) Todo ser é verdadeiro (Omne Ens Est Verum). O primeiro axioma confunde "ser" com "existir". Outro erro é atribuir à existência de algo uma bondade (de deus?) - o que por si já é quse uma afirmação teológica. Um psicopata que mata inocentes existir seria bondade de quem para com quem? Ou qual é a bondade de existir tudo que existe de ruim e mau no mundo? O segundo axioma confunde "ser" com "existir" e atribui equivalência entre a existêncica de algo específico e veracidade... Exemplo: a mentira existe, logo ela é verdadeira; e se é verdadeira não é mais mentira; e se não é mais mentira então ela não existe; e se ela não existe então ela não é verdadeira, e se ela não é verdadeira ela é mentira - e assim retornamos ao ponto inicial num círculo vicioso de contradições - o que evidencia o erro do axioma. Esses dois axiomas foram criados "post hoc" com a finalidade de afimar que se todo ser é bom e verdadeiro, o sumo ser (ou o ser em ato, absoluto que pra eles seria deus) é o boníssimo e verdadeiríssimo, ou seja, é uma tentativa patética de mudar artificialmente a linguagem para tentar adapta-la a um dogma religioso.


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¹ Participação de classe + verbo 'ser' com temporalidade indicativa do presente.

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