As raízes do ideal socialista


Fonte: Fighting Words: The Origins Of Religious Violence, págs. 325-334, (Amherst, New York: Prometheus Books, 2005)

Autor: Hector Avalos, PhD

Hector Avalos é professor associado de Estudos Religiosos na Iowa State University, diretor executivo do Comitê para a Investigação Científica da Religião, ex-editor do Journal for the Critical Study of Religion, e autor ou editor de nove livros sobre estudos bíblicos e religiosos. De sua autoria o Rebeldia Metafísica já publicou O Ateísmo Não Foi A Causa Do Holocausto.

Tradução: Gilmar Pereira dos Santos

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Fighting Words não é apenas mais um livro sobre religião e violência.

Num mundo em que a violência parece estar por todos os lados, muitas vezes provocada por conflitos religiosos, muitas pessoas ainda defendem não que as principais religiões do mundo sejam inerentemente violentas, mas que as ações de uma minoria radical de seus adeptos o são. As religiões em si são pacíficas e fraternas e empenhadas em melhorar a condição humana. Este poderoso livro defende que as origens da violência enraízam-se profundamente na natureza da própria religião em si. Neste estudo intrigante e original da violência religiosa, Hector Avalos oferece uma nova teoria para o papel da religião em conflitos violentos. Começando com a premissa de que a maior parte da violência resulta da escassez de recursos real ou percebida, Avalos defende persuasivamente que a religião cria novas necessidades baseadas em critérios ilusórios ou inverificáveis. Através de uma esmerada análise dos textos fundamentais do Judaísmo, do Cristianismo e do Islã, Avalos explica como quatro recursos “escassos” tem repetidas vezes desempenhado um papel crucial na produção de violência religiosa: espaço sagrado, a criação de escrituras sagradas, privilégios grupais e salvação.

A criação de espaços sagrados pode gerar violência quando dois ou mais grupos desejam o mesmo espaço sagrado, e este tem sido o caso em vários conflitos do Oriente Médio, desde as Cruzadas até o moderno conflito entre os Estados Unidos e Osama Bin Laden. A inscrituração _ a criação de escrituras sagradas _ tornou-se um recurso escasso porque os fiéis sustentam que somente um livro ou conjunto de livros contém a revelação de Deus. Privilégios grupais tornam-se um recurso escasso quando aos infiéis é vedado usufruir dos mesmos privilégios dos fiéis. Muito buscada após os privilégios é a salvação, um dos recursos mais escassos de todos em algumas religiões.

Comparando a violência em contextos religiosos e não-religiosos, Avalos constrói o persuasivo argumento segundo o qual se condenamos a violência causada por escassez de recursos como moralmente objetável, então devemos considerar ainda mais objetável a violência provocada pela alegada escassez de recursos cuja existência sequer pode ser demonstrada. Além disso, ele mostra como vários estudiosos da religião contemporâneos sustentam o valor dos textos sagrados apesar de sua violência.

O livro é dividido em quatro partes. A Parte 1 sumariza explicações prévias para a violência, situando a tese central do livro no contexto dessas explicações, bem como explicando porque a maioria das explicações anteriores não teve êxito em identificar os mecanismos mais básicos da violência. A Parte 2 introduz o arcabouço teórico da teoria dos recursos escassos, sobre a qual a tese central do livro foi erigida. A Parte 2 também contém o principal do livro na medida em que ilustra detalhadamente como sua tese se aplica ao Judaísmo, ao Cristianismo e ao Islã.

A Parte 3 (à qual pertence o texto a seguir) examina alegados exemplos de violência secular. Isto é importante porque vários acadêmicos assumem que a violência secular é em grande medida responsável pelo que parece ser violência religiosa. São demonstradas as origens religiosas das maiores instâncias de violência (por exemplo, o Holocausto Nazista e o Dia de São Bartolomeu) que tem sido atribuídos a forças políticas e seculares. A quarta e última parte sintetiza a tese mostrando como a violência secular difere da violência religiosa, além de oferecer soluções e aplicações práticas para a teoria.

Este sério exame filosófico das raízes da violência religiosa acrescenta muito à nossa compreensão de uma fonte perene de sofrimento humano generalizado.

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Se Hitler não se qualifica como ateu, Stalin certamente o faz aos olhos de muitos. Além disso, tem-se afirmado que o terror stalinista oferece um exemplo radical de como a violência pode ser causada pelo ateísmo. Vance Farrel, autor do compêndio antievolucionista The Evolution Cruncher, nos diz que “Lenin foi um ardente evolucionista, assim como Stalin. Com efeito, foi a mensagem que ele encontrou no livro de Darwin que transformou Stalin na criatura bestial que ele veio a se tornar.”[1] Em geral, tais declarações são escassamente documentadas ou vem de fontes secundárias.

Nossa discussão mostrará que o reinado de terror de Stalin teve tanto a ver com política quanto com ateísmo. Stalin, na verdade, manteve uma relação complexa com as instituições religiosas na União Soviética. Muito de nossa discussão será documentada com materiais de arquivos que foram trazidos à luz somente com a chegada da glasnot e a queda do Comunismo.

Josef Stalin (1879-1953) foi o líder de aço da União Soviética de 1924 a 1953. De acordo com as melhores biografias, Stalin nasceu Josif Dzhugashvili numa família de camponeses analfabetos em Gori, Georgia.[2] Sua mãe o imaginava como um sacerdote da Igreja Ortodoxa Russa, e Stalin realmente recebeu uma educação religiosa até por volta de seus vinte anos. Ele começou suas atividades com os socialistas por volta de 1899, e tomou parte na Revolução Bolchevique que derrubou o czar Nicolau II (1868-1918) em 1917. Ele foi chamado de “Stalin” (“aço”) após a revolução. Após a morte de Vladimir Lenin (1870-1924), o motor primário da revolução, Stalin ascendeu ao poder após uma série de disputas com outros líderes comunistas. Na esteira do Grande Expurgo de seus rivais em 1936-38, Stalin governou praticamente como único ditador da União Soviética até sua morte em 1953.

A POLÍTICA DO GRANDE TERROR

Até cerca de uma década atrás, a maioria dos estudiosos e pesquisadores sabia realmente pouquíssimo sobre as opiniões pessoais de Josef Stalin a respeito da maioria dos assuntos, já que a maior parte de seus documentos mais significativos permanecia indisponível. Em 1990, Walter Laqueur, o destacado biógrafo de Stalin, lamentava, “até hoje os documentos particulares de Stalin não foram encontrados, e ninguém pode dizer com certeza se eles ainda existem”.[3]

Esta situação não impediu que se afirmarasse que Stalin é um excelente exemplo do mal que o ateísmo pode causar. John Blanchard, autor de um compêndio contra o ateísmo, diz sobre Stalin, “seu desprezo por Deus foi demonstrado sobretudo em sua sórdida perseguição aos fiéis, vários dos quais morreram por sua fé durante um sórdido expurgo que, segundo estimativas de uma autoridade no assunto, levou ao massacre sistemático de cerca de dez milhões de pessoas.[4]

Com o advento da era Gorbachev, os arquivos tornaram-se mais acessíveis aos pesquisadores. O final da década de 1990 testemunhou a publicação de importantes antologias de correspondências pessoais de Stalin e documentos concernentes ao Grande Terror, como os expurgos sob Stalin vieram a ser conhecidos. De especial importância é a correspondência mantida com Vyacheslav M. Molotov (1890-1986) e Lazar Kaganovich (1893-1957), dois de seus assistentes nas décadas de 1920 e 1930.[5] Igualmente importante é a documentação concernente ao período entre 1932 e 1939.[6]

Apesar das novas revelações, os motivos de Stalin para o Grande Terror ainda são difíceis de identificar. Como J. Arch Getty e Oleg V. Naumov comentam a respeito destes documentos recentemente revelados:

Eles não nos dizem exatamente quando Stalin tornou-se convicto de que o terror em larga escala era necessário, nem iluminam por inteiros seus pensamentos. Eles não provam se havia um plano para conduzir o terror ou a extensão em que planos deliberados foram feitos para facilita-lo. Pesquisadores e leitores ainda tem que fazer seus próprios julgamentos sobre estas questões, mas pelo menos agora eles dispõem de mais para continuar.[7]

Efetivamente, não podemos encontrar qualquer evidência direta de que a agenda pessoal do próprio Stalin levou à mortes por causa do ateísmo. Em outras palavras, Stalin nunca justificou qualquer ação com declarações diretas como “Eu não acredito em Deus, portanto estou cometendo o ato de violência X.” Como mostramos antes, tal não é o caso com várias das ações atribuídas a agentes religiosos em nossos exemplos. Em muitos daqueles casos, podemos de fato encontrar declarações diretas na forma: “Eu acredito que Deus deseja X, portanto estou cometendo o ato de violência Y.”

De qualquer maneira, também dizemos que inferência é um método admissível para estabelecer a causação, e podemos fazer o mesmo com Stalin. Stalin seguiu várias políticas antirreligiosas que podem razoavelmente ser atribuídas a seu ateísmo. Muitas evidências para isto foram reunidas nas obras de Dimitri Pospielovsky.[8] A perseguição de igrejas incluiu a interrupção de suas atividades, sua destruição, e o aprisionamento e o assassinato de membros do clero. Tais ações podem de fato ser reduzidas à forma: “Eu não acredito em Deus, portanto estou cometendo o ato de violência X.”

A obra de Pospielovsky também respalda o argumento de que nem todas as atividades antirreligiosas foram violentas. Por exemplo, algumas das atividades assumiram a forma de livros e conferências, como um livro sobre os Manuscritos do Mar Morto. Parte da violência contra as igrejas precisa ser redimensionada pelo fato de que às vezes os soviéticos estiveram favorecendo igrejas ou fiéis pró-sovietes. Igrejas que cooperaram com a agenda comunista recebiam autorização para manter suas atividades, ao passo que igrejas não-cooperativas geralmente eram violentamente reprimidas. De certo modo, isto não é diferente das relações entre a Igreja e o Estado no resto da Europa.[9]

Outros aspectos violentos do que é designado como o Grande Terror sob Stalin podem ser mostrados como primariamente políticos em vez de ateus. A fim de compreender isto, precisamos distinguir duas espécies diferentes porém relacionadas de agenda violenta durante o período stalinista. Uma foi dirigida contra os kulaks, o nome pelo qual eram conhecidos os fazendeiros prósperos ou quase qualquer um que se opôs às políticas agrícolas de Stalin. A outra campanha violenta foi interna, e dirigida contra os burocratas considerados contrários e hostis à Stalin ou à sua agenda.[10]

A liquidação dos kulaks é muito bem documentada. O próprio Stalin falou da “liquidação dos kulaks” como parte de sua agenda. Entretanto, isto tem pouco a ver com ateísmo. A ação contra os kulaks pode ser remontada ao primeiro dos planos quinquenais de Stalin, anunciado em 1929. Stalin imaginou uma industrialização em ritmo acelerado e a coletivização das fazendas. A rápida modernização da agricultura era necessária porque os kulaks produziam os alimentos que seriam consumidos pelos trabalhadores rumando para uma economia coletiva plenamente desenvolvida.

Os kulaks, naturalmente, eram contra a desapropriação de suas terras. Foi esta resistência que levou à execução em massa dos kulaks. Uma série de documentos cruciais aludem a este processo. Por exemplo, há um discurso proferido por Nicolai Bukharin (1888-1938), um colaborador muito próximo de Stalin e, durante algum tempo, líder de uma seção do Conselho Supremo para a Economia Nacional da União Soviética. Bukharin referiu-se a uma sessão plenária do Comitê Central Soviético em 19 de Dezembro de 1930 e comentou, “Em minha opinião, a destruição dos kulaks constitui, em primeiro lugar, um processo decisivo e, se me é permitido falar francamente, doloroso, implicando uma ruptura direta com a velha estrutura, um processo de remodelação [peredelka] da insignificante economia rural sobre as bases da coletivização socialista.”[11]

Um memorando de Kaganovich e M. F. Shkiriatov também sugere a natureza da resistência sendo suprimida pelos oficiais de Stalin. O memorando fala de uma organização contrarrevolucionária chamada “Partido da Comunidade Popular”. Segundo o memorando, “o objetivo desta organização contrarrevolucionária era destruir o poder soviético, a dissolução do kolkhozy e a restauração da agricultura individual [edinolichnoye khoziaistvo] como a forma de agricultura predominante.”[12] O memorando continua instando resistência a esta organização devido a sua utilização privilegiada de propaganda antissemita e a organização de “pogroms hitleristas”.[13]

Mesmo os críticos mais eloquentes de Stalin não atribuem sua violência ao ateísmo, mas antes a ummal dirigido desvelo pela rápida industrialização e pela coletivização. Talvez o crítico mais sincero de Stalin durante o período stalinista tenha sido M. N. Riutin (1890-1937), que prestou serviços como um membro da Junta Governativa para o Supremo Conselho para a Economia Nacional. Em 1932 ele publicou o que veio a ser conhecido como Plataforma Riutin, um documento que foi suprimido. A Plataforma Riutin consiste numa crítica contundente a Stalin, e discutiu os kulaks. Riutin observou que o plano de Stalin mostrou-se efetivamente desastroso, comentando,

O lema de Stalin, “a liquidação dos kulaks como uma classe”, não pode levar a qualquer liquidação definitiva real dos kulaks, já que a base para este lema – “coletivização total” – não se baseia numa genuína “revolução em larga escala das zonas rurais rumo ao socialismo”. Ao contrário, alicerça-se nas formas mais diretas e indiretas da mais rigorosa coerção, planejada para obrigar os camponeses a entrarem para os kolkhozy. Não se baseia numa melhoria de sua condição mas em sua expropriação direta e indireta e na pauperização em larga escala.[14]

Observem que, da forma como Riutin a compreendia, a “liquidação dos kulaks como uma classe” envolveria sua transição da classe dos kulaks para a classe dos kolkhozy (fazendas coletivas). Supunha-se que isto resultaria no melhoramento dos ex-kulaks. Entretanto, o resultado não intencional do plano de Stalin foi deletério para os kulaks. Ironicamente, Riutin vê Stalin como o promotor de uma guerra civil que era contrária à verdadeira essência do Comunismo. Riutin, com efeito, recusa-se a categorizar Stalin como um dos grandes líderes comunistas, ao lado de Marx e Lênin.

Conquanto Riutin responsabilize pessoalmente Stalin pela destruição dos kulaks, é possível encontrar evidências de que Stalin não era capaz de controlar os oficiais superdedicados que eram pessoalmente responsáveis pela violência contra os kulaks. Como observado por Getty e Naumov, Stalin até mesmo determinou uma “pausa na coletivização forçada e ordenou uma redução no uso da violência contra os camponeses” em um artigo publicado na edição de 2 de março de 1930 do jornal Pravda.[15]

Um decreto sigiloso, agora tornado público, mostra que a destruição dos kulaks pode ser vista parcialmente como um caso em que os escalões inferiores foram mais longe do que os escalões superiores pretenderam originalmente. Este decreto, publicado pelo Comitê Central e datado de 8 de Maio de 1933, instrui os oficiais de baixo escalão a parar de prender pessoas “sem nenhuma razão” e a abandonar a prática de “prender primeiro, perguntar depois”.[16] O decreto chega a declarar:

Estes camaradas não compreendem que o método de prisões desordenadas em massa, se é que isto pode ser considerado um método – representa, à luz da nova situação, apenas vulnerabilidades, o que diminui a autoridade do poder soviético. Eles não compreendem que a realização de prisões deve ser limitada e conduzida sob o controle estrito dos órgãos apropriados. Eles não compreendem que as prisões devem ser dirigidas exclusivamente contra os inimigos ativos do poder soviético.[17]

Getty e Naumov observam a hipocrisia deste decreto à luz do fato de que estes oficiais estavam tentando reverter a violência que eles próprios haviam sancionado. Não obstante, permanece o fato de que nenhuma destas diretivas contra os kulaks pode ser vinculada exclusivamente ao ateísmo. As ações podem ser vistas como parte de um esforço brutal e mal orientado para impor a coletivização às massas.

STALIN E A IGREJA

Revelações recentes também ajudam a elucidar o complexo relacionamento de Stalin com a Igreja Ortodoxa Russa (IOR). De particular importância tem sido o trabalho de Tatiana A. Chumachenko, que leciona no Departamento de História Russa Moderna na Chelyabinsk State University. Seu livro Church and State in Soviet Russia: Russian Orthodoxy from World War II to the Khrushchev Years apareceu em inglês em 2000.[18] Mais recentemente, Steven Miner disponibilizou um estudo do período crucial entre 1941 e 1945.[19]

A obra de Chumachenko foi sobretudo arquivística, sendo sua fonte principal a coleção do Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa. Estes arquivos são de especial importância pelo fato de nunca terem sido removidos ou expurgados. Dois grupos de documentos podem ser identificados, de acordo com Chumachenko. O primeiro grupo consiste de documentos de alto nível do próprio Conselho. Dentro deste grupo, Chumachenko encontrou Memorandos de Instruções dos Membros do Governo Relacionadas à Atividade da Igreja Ortodoxa Russa originalmente classificados como altamente confidenciais, que atualmente revelaram-se inestimáveis.[20] Um segundo grupo consiste de documentos que falam da relação entre o conselho e os comissários regionais.

O trabalho de Mikhail I. Odintsov também merece ser mencionado, na medida em que ajudou a estabelecer uma periodização das relações entre a Igreja e o Estado na ex-União Soviética.[21] Para Odintsov, o período entre 1943 e 1948-49 foi decisivo. Em 4 de Setembro de 1943, Stalin encontrou-se com os bispos da IOR. Georgi Karpov, o presidente do Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa, escreveu um relatório sobre o encontro que veio a público somente em 1989. O texto russo foi publicado por Odintsov.[22]

O encontro resultou na normalização das relações com a IOR. Esta normalização levou ao Decreto 1095, publicado em 7 de Outubro de 1943.[23] O decreto delineou as obrigações do Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa, que funcionou como a ligação oficial entre o governo e o Patriarca de Moscou. Ao conselho foi delegada, entre outras obrigações, da revisão de questionamentos e solicitações levantados pelo Patriarca de Moscou, bem como a supervisão da regulamentação de leis pertinentes às questões da Igreja. Resumindo, a normalização sob Stalin significou a transformação da Igreja num órgão governamental.

Para o russo ordinário, entretanto, isso significou o espetáculo de “igrejas lotadas nos feriados ortodoxos, a possibilidade de conduzir ritos religiosos domésticos, tocar os sinos para conclamar os fiéis aos serviços religiosos, e procissões religiosas festivas acompanhadas por imensas multidões.”[24] O número de igrejas abertas mais do que duplicou (de 207 para 509) entre 1944 e 1945.[25] O número de igrejas e capelas cuja abertura foi relatada pelo Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa pulou de 9 829 em outubro de 1943, quando Stalin normalizou as relações com a IOR, para 14 187 em janeiro de 1948.[26] Em 1944 cerca de 148 000 pessoas compareceram às celebrações da Páscoa nas igrejas de Moscou.[27] Numa única igreja na cidade de Kuibyshev, 22 045 batismos foram registrados em 1945, e 5 412 foram registrados apenas nos três primeiros meses de 1946.[28]

Stalin prometeu assistência financeira para a IOR no encontro de 1943, e os registros mostram um aumento substancial nos aportes para a IOR. O orçamento para todas a igrejas russas foi de 550 000 rublos em 1946 e de 3 150 000 rublos em 1947. [29]

O que estes documentos também indicam é que as autoridades distritais algumas vezes desobedeceram as ordens de Stalin de mais tolerância para com a IOR. Em 1947 o conselho recebeu 2033 queixas de oposição das autoridades à abertura de igrejas.[30] Alguns oficiais recusaram-se a abrir instituições teológicas apesar das ordens assinadas pelo próprio Stalin.[31]

Mas as igrejas não estavam totalmente impotentes, mesmo contra alguns burocratas. Em 1944 na região Riazan, um comitê executivo regional tentou demolir uma construção que seria usada como igreja. A explicação oficial foi que a construção não era segura. Os burocratas encontraram resistência da parte dos trabalhadores nas fazendas coletivas, e por fim a construção foi declarada “em boas condições”.[32]

A IOR também cooperou com o governo na supressão de denominações rivais. Um exemplo é o movimento de renovação, conhecido também como a Igreja Viva, que tentou combinar Bolchevismo com Cristianismo Ortodoxo. A Igreja Viva, liderada pelo Arcebispo Alexander Vvdenskii, foi considerada cismática, sobretudo na medida em que permitia pessoas casadas no clero. Correspondências, incluindo alguns apontamentos de Stalin, mostram que existiu uma campanha ativa para provocar o desaparecimento dos renovacionistas. O movimento perdeu muito poder após a morte de Vvdenskii em 1946, embora algumas igrejas tenha continuado ativas pelo menos até 1948.[33]

Em todo caso, o estudo das relações entre a Igreja e o Estado sob Stalin mostram tanto um reinado ateu de terror contra a religião como uma postura mais conciliatória quando útil aos objetivos políticos de Stalin. Em vez de representar alguma inovação atéia radical, a normalização de Stalin assemelhou-se bastante às uniões entre a Igreja e o Estado em vários países cristãos ocidentais.[34] Em vez de mostrar o reinado de terror de Stalin simplesmente como uma trama ateísta, os novos documentos mostram que a IOR continuou sua aliança pré-comunista, embora tênue e complexa, com as elites no poder. Com efeito, a nova questão deveria ser a extensão em que a IOR cooperou com o governo para suprimir as denominações rivais.

COMUNISMO NA BÍBLIA

Em geral, a responsabilização do ateísmo pelos crimes de Stalin pode ser atrelada a uma equação simplista e falsa: “Comunismo = Ateísmo e Ateísmo = Comunismo”. Na verdade, o Comunismo, se definido como uma forma de organização social baseada na posse coletiva do patrimônio, definitivamente não precisa ser ateu. Existem movimentos significativos (por exemplo, a Teologia da Libertação) e grupos célebres (por exemplo, os huteritas) que se identificam como cristãos mas ainda adotam alguma forma de Comunismo. E a violência causada pela coletivização forçada de Stalin pode ser encontrada numa escala menor no caso bíblico de coletivização forçada discutido a seguir.

Na verdade, os leitores da Bíblia parecem ignorar que uma das primeiras formulações do Comunismo encontra-se no Novo Testamento.[35] O livro dos Atos dos Apóstolos relata a história de uma das primeiras formas de sociedade ideal constituída pelos cristãos primitivos. Lemos em Atos 4:32-35 sobre a natureza comunista desta sociedade:

Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça estava sobre todos eles. Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um.

Além disso, este empreendimento coletivista foi seguido de violência e coerção na história imediatamente a seguir em Atos 5.

De acordo com Atos 5:1-11, Ananias e Safira eram um casal que havia vendido todos os seus bens como parte do processo de coletivização. Entretanto, ao contrário de um homem chamado Levi, que havia doado para os apóstolos todo o dinheiro arrecadado com a venda de seus bens, Ananias reteve para si uma parte do rendimento que deveria ter sido entregue aos apóstolos. O apóstolo Pedro imediatamente confrontou Ananias, e proferiu a seguinte acusação:

Ananias, como você permitiu que Satanás enchesse o seu coração, a ponto de você mentir ao Espírito Santo e guardar para si uma parte do dinheiro que recebeu pela propriedade? Ela não lhe pertencia? E, depois de vendida, o dinheiro não estava em seu poder? O que o levou a pensar em fazer tal coisa? Você não mentiu aos homens, mas sim a Deus”. Ouvindo isso, Ananias caiu e morreu. Grande temor apoderou-se de todos os que ouviram o que tinha acontecido.

Cerca de três horas depois, Safira, ciente da retenção de rendimentos de Ananias, encontrou Pedro. O último pronunciou a sentença capital de Deus sobre ela, e ela morreu. A história termina em Atos 5:11 com a seguinte observação: “E grande temor apoderou-se de toda a igreja e de todos os que ouviram falar desses acontecimentos.

A história relatada no livro dos Atos dos Apóstolos possui dois elementos correspondentes na política stalinista, na medida em que a compreendemos. Primeiro, havia um objetivo declarado de coletivização. Segundo, os que foram flagrados não cooperando com a coletivização foram objetos de violência. O número de pessoas mortas pode ter sido diferente, mas o princípio é semelhante: a violência é um método apropriado para lidar com os que não cooperam com a coletivização.

Afirmar que o crime de Ananias foi mentir ou quebrar uma promessa feita a Deus não atenua o princípio correspondente que identificamos. O autor ainda endossa a ideia de que uma promessa para impor a coletivização pode ser cobrada pela violência. A única diferença significativa, é claro, é que as ordens e os desejos de Deus não são verificáveis, como o autor do livro de Atos afirmou. Qualquer pessoa morta sob estas premissas verdadeiramente teria sofrido por uma violação de uma promessa feita a uma entidade inexistente ou pelo menos a uma entidade de cuja existência não se tem conhecimento, ao passo que a violência sob Stalin violou as regras de uma pessoa que realmente existiu, não importa o quanto injustificadas essas regras possam ter sido.

[Acréscimo do tradutor: para os que insistem na alegada incompatibilidade entre socialismo, comunismo, esquerdismo ou seja lá como queiram chamar, e o Cristianismo, repito o que já havia dito no artigo sobre ateísmo e Holocausto: intérpretes modernos da doutrina cristã, como o influente apologista inglês C.S. Lewis, reconhecem que no aspecto econômico, uma sociedade construída sob princípios cristãos “seria o que se chama hoje em dia ‘de esquerda’(…) sua vida econômica seria bastante socialista“. Para maiores detalhes vejam o capítulo 3 do terceiro livro de Cristianismo Puro e Simples, Conduta Cristã – Moralidade Social]

SUMÁRIO

A ideia de que o ateísmo foi responsável pelo terror em larga escala sob o governo de Stalin é parcialmente verdadeira. O ateísmo certamente foi um elemento da razão para a violência antirreligiosa ao longo da era soviética. O fator mais importante, entretanto, parece ter sido político. As ações de Stalin contra os kulaks representam uma instância de uma política de coletivização forçada em vez de uma política ateísta. Outras ações repressivas poderiam ser vinculadas à criação da identidade pan-soviética.[36] Em que medida a ação contra os kulaks foi conduzida por oficiais excessivamente dedicados e em que medida qualquer violência em larga escala representa o que Stalin inicialmente e pessoalmente tencionou é discutível. Tal coletivização forçada provavelmente levaria à violência quer se acreditasse em Deus, como no caso de Ananias e Safira, quer não, como no caso do Stalinismo.

Notas.

1. Vance Ferrel, The Evolution Cruncher (Altamont, TN: Evolution Facts, 2001), págs. 820-821.

2. Nossa biografia de Stalin foi extraída de Walter Laqueur, Stalin: The Glasnot Revelations (New York: Scribner’s, 1990).

3. Ibid. p. 337.

4. John Blanchard, Does God Believe In Atheists? (Auburn, MA: Evangelical Press, 2000), p. 68. Para uma resenha do livro de Blanchard, veja Hector Avalos, Free Inquiry (Outono 2002): 69-70.

5. Lars T. Lih, Oleg Naumov, e Oleg V. Khlevniuk, eds., Stalin’s Letters to Molotov (New Haven, CT: Yale University Press, 1995); R. W. Davies, Oleg V. Khlevniuk, e E. A. Rees, The Stalin-Kaganovich Correspondence 1931-36 (New Haven, CT: Yale University Press, 2003).

6. J. Arch Getty e Oleg V. Naumov, The Road To Terror: Stalin and the Self-Destruction of the Bolsheviks, 1932-1939 (New Haven, CT: Yale University Press, 1999).

7.Ibid., p. 25.

8. Dimitry V. Pospielovsky, A History of Sovietic Atheism in Theory and Practice and the Believer, 3 vols. (London: Macmillan, 1987-88). Veja também Stephen K. Batalden, ed., Seeking God: The Recovery of Religious Identity in Orthodox Russia, Ukraine, and Georgia (DeKalb: Northern Illinois University Press, 1993).

9. Os exemplos são inúmeros, e incluem especialmente Henrique VIII (1509-1547) e “Bloody” Mary I (1553-1558). Veja também, Peter A. Dykema e Heiko Oberman, eds., Anticlericalism in Late Medieval and Early Modern Europe (Leiden: Brill, 1993).

10. Veja também, Robert W. Thurston, Life and Terror in Stalin’s Russia 1934-1941 (New Haven, CT: Yale University Press, 1996).

11. Getty e Naumov, The Road to Terror, p. 47.

12. Ibid., p. 65.

13. Ibid.

14.Ibid., p.57.

15. Ibid., p. 109.

16. Ibid. p. 115.

17. Ibid.

18. Tatiana A. Chumachenko, Church and State in Soviet Russia: Russian Orthodoxy From World War II to the Krushchev Years, trad. Edward E. Roslof (Armonk, NY: M. E. Sharpe, 2002), p. 11. O título original é Gosudartsvo, pavoslavnaia tserkov, veruiushchie, 1941-1961 (Moscou: AIRO-XX, 1999).

19. Steven Merritt Miner, Stalin’s Holy War: Religion, Nationalism, and Alliance Politics 1941-1945 (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2003).

20. Chumachenko, Church and State, p. 11.

21. Mikhail I. Odintsov, Russie patriarkhi XX veka: Sud’by Otechestva I Tserkvi na stranitsakh arkhivnykh dokumentov (Moscou, RAGS, 1999).

22. Ibid., págs. 283-291. Figura como o documento nº 34 na coleção de documentos de Odintsov.

23. Para uma tradução em língua inglesa, veja Chumachenko, Church and State, pp. 17-18.

24. Ibid., p. 190.

25. Ibid., p. 59, tabela 1.1.

26. Ibid., p. 67, tabela 1.3.

27. Ibid., p. 85.

28. Ibid.

29. Ibid.

30. Ibid., p. 61.

31. Ibid., págs. 71-72.

32. Ibid., p. 62.

33. Ibid., p. 39.

34. Para a política de Stalin em relação aos judeus, veja Robert Weinberg, Stalin’s Forgotten Zion: Birobidzhan and the Making of a Soviet Jewish Homeland, Na Illustrated History, 1928-1996 (Berkeley and Los Angeles: University Of California Press, 1998); e Gennadi Kostyrchenko, Out of the Red Shadows: Anti-Semitism in Stalin’s Russia. (Amherst, NY: Prometheus Books, 1995). Para outros tratamentos da comunidade judaica soviética, veja Allan Laine Kagedan, Soviet Zion: The Quest For a Russian Jewish Homeland (New York: St. Martin’s, 1994); e Nora Levin, The Jews in the Soviet Union since 1917, 2 volumes. (London: I. B. Taturis, 1990).

35. Para uma aplicação clássica do marxismo à Bíblia, veja José P. Miranda, Marx and the Bible: A Critique of the Philosophy of Oppression, trad. John Eagleson (Maryknoll, NY: Orbis, 1974).

36. Para um estudo de como as práticas religiosas e medicinais autóctones dos cazaques foram afetadas pelo movimento rumo a uma identidade pan-soviética, veja Paula A. Michaels, Curative Powers: Medicine and Empire in Stalin’s Central Asia (Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2003). Para a política em relação aos muçulmanos, veja Alexandre Bennigsen e S. Enders Wimbush, Muslims of the Soviet Empire: A Guide (Bloomington: Indiana University Press, 1996).




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